Por trás de uma grande história: Recordare

O projeto Recordare revive o lado humano de Guignard e Erna Antunes por meio das memórias de amigos, alunos e familiares, unindo arte e educação.

Recordare: rua de casario colonial com igreja ao fundo em Mariana (MG)

A pessoa por trás do feito

Ao ir em busca dos rastros, marcas e legados de artistas consagrados, projeto Recordare revive o lado humano de mestres e mestras da cultura brasileira

Toda relação deixa marcas. Ensinamentos, afetos que moldam o olhar, uma simples anedota que desperta riso farto. Reviver essas marcas – e, com elas, as relações cultivadas por mestres e mestras da arte brasileira – é a razão de ser do projeto Recordare: uma iniciativa de arte-educação que busca mais humanizar do que celebrar os feitos de grandes artistas.

O projeto nasceu de uma relação antiga entre os amigos Gustavo Nolasco (escritor) e Carol Reis (fotógrafa) – relação que inspirou a ideia do Recordare antes mesmo de ele ter esse nome. “Carol e eu nos conhecemos há 30 anos: eu era estagiário e ela, fotógrafa, em uma agência de comunicação. Nasceu ali nossa amizade. E, apesar de ainda não termos trabalhado juntos, o desejo de fazer algo permaneceu, até que nos encontramos no Museu de Mariana e concretizamos a ideia”, conta Nolasco.

Recordare: retratos em preto e branco de Erna Antunes e Alberto da Veiga Guignard
Erna Antunes e Alberto da Veiga Guignard serão os primeiros artistas do projeto Recordare. Foto: Recordare/Divulgação

Ele lembra que Carol falou da sua pesquisa sobre o pintor Alberto da Veiga Guignard e ele, por sua vez, da vontade de fazer um projeto para reviver a memória da artista e professora Erna Antunes. “Juntamos esses desejos, pensamos e conversamos muito até criar o conceito do Recordare, a partir desses dois mestres – mas que não vai se limitar a eles.”

Humanidade

Humanizar os artistas é o aspecto mais importante do Recordare, salienta Nolasco, já que diversos projetos anteriores destacaram as obras, o talento, o legado. “Queremos mostrar o outro lado, as pessoas que conviveram com eles e carregam seus ensinamentos, suas marcas. Falo de pessoas comuns, vizinhos, amigos, filhos, familiares e também discípulos, pois queremos evidenciar o simples das relações, o que contribuiu para as características pessoais, não só para os grandes feitos.”

As pessoas documentadas pelo projeto não são necessariamente fontes oficiais dos artistas e sim pessoas que trazem marcas, relatos de humanização dessas figuras históricas – e chegar a até elas não foi um processo simples, foi necessário conversar com muita gente, ir a campo, não só fazer pesquisas em livros. “Essas pessoas são muito mais que fontes, são as protagonistas do Recordare. Carregam as lembranças, as marcas que os mestres deixaram. E são essas marcas que ficam”.

Recordare: foto histórica em preto e branco de Guignard caminhando com um grupo de alunas
Alberto da Veiga Guignard. Foto: reprodução da Coleção Fotográfica AVG/Acervo de imagens do século XX sob a guarda do Acervo Digital da Secult-MG, vinculado ao Museu Casa Guignard.

Para o historiador Cristiano Casimiro, que faz arte da equipe de arte-educação do Recordare, a obra de Guignard e Erna é consequência de sua vivência, de suas alegrias e frustações, do local e da época onde viveram. “Isto é refletido nos trabalhos e traz um olhar diferenciado do momento da obra e local onde foi feita. Como diz a professora Noemi Jaffe ‘A modernidade e as vanguardas do início do século passado procuraram derrubar a mitologia que se estabeleceu em torno do artista inspirado e eleito, trazendo a prática artística para mais perto do chão, do dia a dia, dos indivíduos comuns.’”

Segundo o historiador, quando se conhece o lado humano, social e criativo do artista, é possível ter outra interpretação da sua obra. “O Recordare mostra outras facetas dos artistas e de suas obras. Características que são passos importantes para a preservação, divulgação e valorização do patrimônio imaterial deixado por eles”.

Arte-educação

Ao jogar luz ao lado humano de mestres e mestras da arte brasileira, o Recordare está chamando atenção também para a educação. Segundo Gustavo Nolasco, a própria palavra mestre – que quer dizer professor, ensinamento, troca – diz muito sobre o princípio da educação.  “Assim como esses mestres ensinaram e deixaram marcas, o projeto contempla o ensinar e aprender. O que é uma via de mão dupla, não é só de mestre para o aluno, mas de aluno para mestre. Vamos ter sempre atrelado às exposições, oficinas educativas e culturais, visitas com alunos e crianças, uma programação especialmente pensada pela equipe de arte-educação.”

Recordare: janelas coloniais e lampião em fachada branca de casarão em Ouro Preto (MG)
Detalhe de casarão em Ouro Preto (MG). Foto: Marcus Desimoni/NITRO

A educação no projeto também conversa com a revivência de memórias, em especial  as memórias individuais para despertar nas outras pessoas o apreço por essas lembranças pessoais. “Ter contato com a memória individual do outro faz com que as pessoas sintam uma conexão, o que desperta outras memórias, conecte sentimentos. Tudo isso tem muito valor, tanto para a memória individual, quanto para a coletiva.”

Cristiano Casimiro ressalta que educar, ensinar e compartilhar as histórias de pessoas próximas a Guignard e Erna mostra o valor da vivência e a passagem destes artistas por duas grandes cidades históricas mineiras, Mariana e Ouro Preto, que deixaram um legado histórico, criativo e educacional muito grande. “Levar estas informações ao público é colocar a arte e a vida como inspiração, valorização e registro histórico. A educação e a arte são e serão, sempre, uma forma de forjar a cultura e a tradição de um povo.”

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