Dedo de Prosa: Bárbara Pinheiro

A bióloga Bárbara Pinheiro fala sobre os desafios das mulheres na conservação ambiental, tema da série “Mulheres na Conservação”, realizada pela NITRO.

Pesquisadora Bárbara Pinheiro mergulha sobre fundo de areia em Maragogi (AL)

“O imaginário popular ainda associa conservação a um biólogo com prancheta, e não a uma mulher. ”

 

Embora as mulheres sejam pilares da conservação ambiental do Brasil, o reconhecimento a esse trabalho, bem como sua representatividade em espaços de poder, ainda são grandes desafios. Para falar desse assunto, convidamos a bióloga Bárbara Pinheiro, que é doutora em Oceanografia, pesquisadora do PactoMar, da Unifesp, e uma das protagonistas da série Mulheres na Conservação, realizada pela NITRO em parceria com a jornalista Paulina Chamorro.

Apesar de alguns avanços para as mulheres conservacionistas, ainda existem muitas barreiras estruturais, envolvendo segurança, baixa representatividade em cargos de liderança, entre outros. O caminho para superar tais desafios ainda é muito longo? Por que?

O caminho é longo, mas possível. Um exemplo são as mulheres caiçaras e pescadoras artesanais, que sempre percorreram grandes distâncias, carregando a comunidade e o conhecimento tradicional nas costas. Nos últimos anos, houveram avanços como o reconhecimento científico do saber dessas mulheres e a abertura de financiamentos para projetos liderados por elas. Essas são vitórias importantes. No entanto, as barreiras estruturais persistem. A insegurança é real – quem lidera a defesa de territórios costeiros enfrenta ameaças e violências que os homens não sofrem. Além disso, a baixa representatividade nos espaços de decisão ainda coloca a mulher como executora, e não como protagonista das políticas públicas. Superar isso exige transformação estrutural, com políticas de gênero, redes de apoio e mudança cultural.

Pesquisadora Bárbara Pinheiro e colega coletam amostras de água em barco, em Maragogi (AL)
Cena da série Mulheres na Conservação com Bárbara Pinheiro. 

Quando se fala em mulheres na conservação, é fundamental olhar também para as mulheres de comunidades tradicionais. O reconhecimento ao papel dessas mulheres é crescente no meio científico, mas pensando na sociedade, como elas são vistas?

No meio científico, estou coproduzindo atualmente um projeto com muitas mulheres caiçaras, o PactoMar, da Unifesp. Estamos juntas lutando por uma ciência de fato inclusiva e diversa, desde a escolha da pergunta a ser estudada até a entrega de um produto, seja ele um artigo para revistas cientificas, um livro, um documentário, uma minuta de política pública. Sou feliz por ver que no meu ciclo, pescadoras, marisqueiras e ribeirinhas são reconhecidas como verdadeiras doutoras da vida.  Mas, para a sociedade em geral, essas mulheres ainda são invisíveis ou estereotipadas. A cidade consome o peixe, mas não vê as mãos calejadas que garantem a saúde dos oceanos. O imaginário popular ainda associa conservação a um biólogo com prancheta, e não a uma mulher caiçara que traz todo seu conhecimento ancestral e vivencias práticas diárias para a tomada de decisão. O grande desafio é fazer a sociedade enxergar que a cultura e a tradição dessas mulheres são a base da conservação marinha no Brasil.

Sua trajetória é uma inspiração para muitas mulheres e um incentivo para futuras gerações de meninas aturem na conservação. No seu caso, qual mulher mais inspirou a sua caminhada?

Sem dúvida, as minhas raízes e referencias estão nas minhas avós, mãe, tia e madrinha. Eu tive a sorte de crescer numa família que pode estudar. Não sou a primeira geração da minha família a fazer graduação. Minha avó paterna, depois de casada, conseguiu fazer duas graduações. Ela foi aluna de Paulo Freire e de Ariano Suassuna. Preciso dizer mais? Minha madrinha é cientista natural, e professora universitária, tem uma casa na praia de Tamandaré (PE), foi lá que dei meus primeiros mergulhos no mar e me encantei pelos recifes de coral.

Na faculdade conheci a professora doutora Zelinda Leão, a dama dos corais brasileiros. E ao longo da minha formação tive a sorte de ter professoras e colegas muito inspiradoras. Depois do doutorado, quando comecei a atuar mais fortemente com conservação e sociedade, minhas inspirações são as integrantes da rede de mulheres pescadoras da costa dos corais, Ana Paula, Izabel Cristina, Margarida. Na região sudeste sou muito inspirada pelo trabalho que a Tatiana e a Joice de Cananeia, Nathalia de Cubatão, Mariana e Angélica na Ilhabela fazem no litoral paulista. E não posso deixar de falar das mulheres da Liga das Mulheres Pelo Oceano, onde tive a honra de conhecer muitas mulheres inspiradoras, como a codiretora do nosso documentário Mulheres na Conservação, a Paulina Chamorro.

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