Dedo de Prosa: Luisa Dörr

A fotógrafa Luisa Dörr conta os bastidores da curadoria de “Cooperativas do Brasil: retratos de um mundo melhor” e o papel da fotografia documental.

Cooperativas do Brasil: artesãs da Turiarte exibem peças nas janelas de casa de palha em Santarém (PA)

Paisagem humana da cooperação

Olhar para as mulheres e homens na linha de frente das cooperativas é enxergar diferentes universos. Para trazer fluidez narrativa e exaltar o aspecto humano desse imenso panorama de histórias, a fotógrafa documentarista Luisa Dörr realizou um trabalho de fôlego: fez a curadoria de fotos do livro e da exposição “Cooperativas do Brasil: retratos de um mundo melhor”. Realizado pela NITRO para a Organização das Cooperativas do Brasil, esse é um dos maiores documentos fotográficos sobre o trabalho coletivo no país. À coluna Dedo de Prosa, ela conta mais sobre os bastidores desse trabalho.

O projeto retratou a atuação de cooperativas em todo o Brasil, nos 26 estados e Distrito Federal. Pensando nos bastidores do processo de curadoria, o que você destacaria, entre desafios e o que te surpreendeu positivamente?

O desafio foi, basicamente, para a equipe de fotógrafos: havia pouco tempo para retratar uma paisagem humana imensa. Muitas locações, muitas pessoas e muitas atividades. Um dos maiores desafios para o fotógrafo é chegar de “paraquedas” em uma comunidade e conseguir fotografar, de forma descontraída, um grupo de pessoas que, até poucos minutos antes, eram completos desconhecidos.

Conseguir um sorriso, uma ação relaxada e natural depende muito da inteligência emocional do fotógrafo. Acho que foi um grande sucesso nesse aspecto.

Cooperativas do Brasil: jovem artesã da Cooperativa Dedo de Gente trança fibras em Curvelo (MG)
Curvelo (MG). A Cooperativa Dedo de Gente é um projeto social e de economia solidária que reúne jovens artesãos. Créditos: Leo Drumond/NITRO

Os cooperados e cooperadas representam diferentes culturas, histórias, economias. Mostrar essa pluralidade fez parte da sua curadoria, certo? Como isso foi feito?  

Sim, claro. Essa pluralidade faz parte do Brasil como país. Somos um país continental, com muitas realidades, tanto sociais quanto políticas, e até mesmo temporais. Existem muitas comunidades que vivem em um tempo histórico muito diferente do de São Paulo.

As cooperativas, de algum jeito, são uma microrepresentação dessa variedade. A pauta da curadoria foi, basicamente, exaltar a qualidade, criando um ritmo visual e narrativo, sempre tentando equilibrar o peso de todas as histórias.

Cooperativas do Brasil: jovens da Cooperativa Dedo de Gente preparam doce em tacho de cobre em Curvelo (MG)
Curvelo (MG). Além do artesanato, a Cooperativa Dedo de Gente gera oportunidades de desenvolvimento humano, profissional e geração de renda para jovens em situação de vulnerabilidade. Créditos: Leo Drumond/NITRO

Qual o papel da fotografia para documentar a dimensão humana do trabalho e, em especial, do trabalho coletivo, como é o caso das cooperativas?

Até pouco tempo atrás, poderíamos dizer que a fotografia documental era uma representação realista e, ao mesmo tempo, carregava algo da subjetividade do fotógrafo. Agora as coisas mudaram bastante com toda a tecnologia nova.

Mas, deixando essa questão de lado, acho que o fato de levar um fotógrafo profissional para retratar certas histórias, que depois serão impressas e publicadas na mídia, de algum jeito legitima e registra essas comunidades e suas atividades. Dá um reconhecimento merecido.

Claro que qualquer pessoa pode fazer fotos e publicá-las nas redes sociais, mas ainda existe uma distinção importante quando esse trabalho é realizado por um profissional. Olhamos para essas imagens com uma predisposição diferente.

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